Sobre o projecto

António Soares — o modernista esquecido é um projecto de investigação independente em História da Arte a desenvolver ao longo do ano 2021 com o apoio da Direção-Geral das Artes.

António Soares (1894-1978) foi um dos artistas mais importantes do primeiro Modernismo em Portugal, a par de Almada Negreiros e Amadeo de Souza-Cardoso. Esteve presente em quase todos os acontecimentos marcantes nas primeiras décadas do século vinte, como os Salões dos Humoristas, Modernistas e Fantasistas, o grupo dos primeiros artistas da Brasileira do Chiado, a decoração do Bristol Club, o Baile dos Artistas ou a grande representação nacional na Exposição Internacional de Paris em 1937. Almada e Amadeo encontram-se profusamente estudados e apresentados. Grandes retrospectivas foram levadas a cabo pela Fundação Calouste Gulbenkian (Almada, em 1984, José de Almada Negreiros: uma maneira de ser moderno, em 2017, e Amadeo: Diálogo de Vanguardas, em 2006 — que incluiu a publicação de um catálogo raisonné) todas elas com um enorme sucesso de bilheteira e vasta repercussão mediática. Para além das retrospectivas, muitas outras exposições de alcance considerável foram chegando ao público nas últimas décadas e ambos os artistas dispõem de bibliografia vasta e relevante.

António Soares permanece o modernista pouco conhecido e permanentemente adiado. Apesar de ser um artista incontornável em qualquer acontecimento sobre o Modernismo português — exposições e publicações —, nem durante a vida, nem após a sua morte foi feita uma exposição retrospectiva com alcance relevante nem uma publicação monográfica que, pelo menos, nos dê a conhecer genericamente o artista. Ocasionalmente, nas últimas décadas, houve pequenas exposições em lugares de menor destaque, que apresentaram trabalhos cobrindo um período alargado, mas em nenhum caso foi levada a cabo a retrospectiva que António Soares merece e justifica. No que diz respeito a estudos e publicações, o panorama é ainda mais desolador: há apenas dois livros que lhe são dedicados em exclusivo, um quase facsimile de um álbum de desenhos de juventude, publicado por uma pequena editora nortenha com grande cumplicidade dos herdeiros, mas sem qualquer texto de mediação e um catálogo da exposição mais ou menos recente que houve no Museu Nacional do Teatro e da Dança — este com dois textos de enquadramento. Naturalmente, todas as histórias da arte em Portugal no século vinte referem António Soares mas ficam-se por apresentações genéricas, todas muito semelhantes, e as obras escolhidas para o representar são sempre as mesmas duas ou três que, apesar de importantes e pertinentes, estão longe de reflectir o conjunto da obra e os muitos núcleos que o artista explorou com profundidade.

Este projecto pretende resgatar António Soares do esquecimento através de uma investigação profunda e exaustiva nos arquivos e nas instituições onde o seu trabalho, e a informação sobre ele, permanece por recolher e tratar. O trabalho materializar-se-á na produção de uma monografia — que poderá ser publicada posteriormente — e pela constituição de um pequeno arquivo de referências e reproduções a disponibilizar a quem dele necessitar.

Por António Castanheira

Historiador de Arte, artista e curador independente.